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ARTE XÁVEGA
Praia da Mata, 17 horas
Ti Arceliano começou por conduzir o tractor que nos levou da Costa
da Caparica até à Praia da Mata.
A vida dele foi passada no mar. Conhece aquelas praias de lés a lés ...
a sua voz é muito meiga, voz de menino, e conta com saudade como eram,
como foram aquelas praias.
- Ainda ontem, menina, o mar engoliu tudo ... ali para os lados do Inatel ...
Está tudo uma desgraça ... Não sei onde isto irá parar ...
Na Praia da Mata o Robalo estava pronto para a faina. Os homens aguardavam
a chegada da hora certa para entrarem no mar. O combinado era encontrarem-se
todos na Praia da Mata, por volta das cinco horas da tarde.
Quim Cavalinha, a quem chamam, o Lobo do Mar, organizava tudo.
- Vamos esperar até chegarem todos; dizia ... com ar impaciente ...
andava de um lado para outro, talvez a rezar para que Deus lhe concedesse
a graça de terem uma boa pescaria ...
Reunidos os homens, entraram pelo mar ...
Ah! Povo que "Lavras no rio" ...
A espera foi longa, mas eis que o barco chega finalmente do mar.
O grito das gentes é de tal forma emotivo que me deixa desorientada com
tanta confusão.
Apressadamente, reúnem-se homens e mulheres e cada um ajuda como pode a
puxar as redes. Formam duas alas, e ajudados pelo tractor vão enrolando as
cordas ao mesmo tempo que as puxam. Todos gritam ... cada um diz sua coisa ...
chamam-se uns aos outros para unirem forças.
Quero eternizar este momento para sempre, a aparência das pessoas e os seus
gestos a cada minuto ... Ouço-me a gritar ... Lindo ...! Lindo ...!
Apressadamente, as gaivotas vêm com eles, desde o início que rondam o barco
à espera de uma boa refeição ... No mar as ondas rolam pela areia num jeito
calmo aguardando como uma mãe que alimenta o seu filho ...
A luz do sol muda a cada instante, reparo no céu como num espelho, o sol
reflecte no mar tons prateados que se prolongam até à areia ... É o Momento ...
Cresce o alarido:
- Agora! Agora!
Perto de mim a poalha do mar mistura-se ao azul do céu, há um hálito fresco
e húmido, uma exalação viva e salgada ...
É assim a pesca no grande areal.
© Isaurinda Brissos
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