© Isaurinda Brissos

 
 
 

ARTE XÁVEGA

Praia da Mata, 17 horas
Ti Arceliano começou por conduzir o tractor que nos levou da Costa da Caparica até à Praia da Mata.
A vida dele foi passada no mar. Conhece aquelas praias de lés a lés ... a sua voz é muito meiga, voz de menino, e conta com saudade como eram, como foram aquelas praias.
- Ainda ontem, menina, o mar engoliu tudo ... ali para os lados do Inatel ... Está tudo uma desgraça ... Não sei onde isto irá parar ...

Na Praia da Mata o Robalo estava pronto para a faina. Os homens aguardavam a chegada da hora certa para entrarem no mar. O combinado era encontrarem-se todos na Praia da Mata, por volta das cinco horas da tarde.
Quim Cavalinha, a quem chamam, o Lobo do Mar, organizava tudo.

- Vamos esperar até chegarem todos; dizia ... com ar impaciente ... andava de um lado para outro, talvez a rezar para que Deus lhe concedesse a graça de terem uma boa pescaria ...

Reunidos os homens, entraram pelo mar ...
Ah! Povo que "Lavras no rio" ...

A espera foi longa, mas eis que o barco chega finalmente do mar.

O grito das gentes é de tal forma emotivo que me deixa desorientada com tanta confusão.
Apressadamente, reúnem-se homens e mulheres e cada um ajuda como pode a puxar as redes. Formam duas alas, e ajudados pelo tractor vão enrolando as cordas ao mesmo tempo que as puxam. Todos gritam ... cada um diz sua coisa ... chamam-se uns aos outros para unirem forças.

Quero eternizar este momento para sempre, a aparência das pessoas e os seus gestos a cada minuto ... Ouço-me a gritar ... Lindo ...! Lindo ...!

Apressadamente, as gaivotas vêm com eles, desde o início que rondam o barco à espera de uma boa refeição ... No mar as ondas rolam pela areia num jeito calmo aguardando como uma mãe que alimenta o seu filho ...

A luz do sol muda a cada instante, reparo no céu como num espelho, o sol reflecte no mar tons prateados que se prolongam até à areia ... É o Momento ...

Cresce o alarido:
- Agora! Agora!

Perto de mim a poalha do mar mistura-se ao azul do céu, há um hálito fresco e húmido, uma exalação viva e salgada ...
É assim a pesca no grande areal.

© Isaurinda Brissos

 
 


© Isaurinda Brissos