Na Itália dos finais do século XIX era frequente assistir nas praças das povoações a representações teatrais que pequenas companhias ambulantes levavam a cabo. Estes espectáculos, montados de maneira pobre e simples, eram os herdeiros da tradição da commedia dell'arte, género nascido na Itália durante o século XVI que utilizava uma comicidade directa, e a miúde grosseira, baseada em enamoramentos, burlas, equívocos.
As representações contavam-nos a vida precária e miserável dos seus actores, que iam de povoado em povoado montando o seu espectáculo.
Em Portugal, mais precisamente em Peroguarda, ainda assisti
a este tipo de espectáculo, na praça principal.
Chamávamos-lhe os Poltriqueiros.
Chegavam como o circo, tocando e fazendo poltricas pela aldeia, anunciando o
seu espectáculo para o princípio da noite. Atrás deles,
corria a criançada eufórica, pulando e dançando com eles
sem perder um minuto que fosse de todo o espectáculo.
Faziam da casa dos meus avós o seu camarim, onde pude assistir à
sua transformação sem pestanejar.
A noite chegava A falta de luz na aldeia dava ao cenário um mistério inigualável. À volta do palco improvisado, estavam sentadas todas as crianças da aldeia, e os adultos, sentados à porta de casa em cadeiras de buinho, viam e comentavam alegremente à luz trémula de um candeeiro a petróleo uma noite diferente.
Ao ver este espectáculo tirei da minha caixinha de sonhos estas memórias, alegres, coloridas, inesquecíveis.